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ARTIGO: Ética e virtude cívica

Detalhe da sede de atendimentos da Defensoria Pública, em Palmas, em abril de 2026
Detalhe da sede de atendimentos da Defensoria Pública, em Palmas, em abril de 2026 — DPE-TO
O Brasil já é a sexta economia do globo. Essa conquista brasileira deixou para trás a França, país desenvolvido e de primeiro mundo. A promessa agora é ultrapassar até o fim do ano o Reino Unido, tornando-se, então, a quinta economia do planeta.

 O fato de ser a quinta ou sexta economia mundial é algo inquietante. Inquietante porque nos leva a indagações frustrantes: Porque não temos a sexta melhor educação? Porque a qualidade de nossa saúde não nos coloca em sexto lugar? Porque o crescimento de nossa economia não revela também o aumento do bem-estar em nossa sociedade? Porque a virtude cívica não é valorizada entre nossos concidadãos?

Robert F. Kennedy há algumas décadas falou ao povo dos Estados Unidos. Ele discursou sobre os valores que o país deveria abraçar para se tornar uma nação. Apesar do tempo, esse é um discurso atual e em versão tupiniquim poderia ser proferido da seguinte forma:

“Nosso PIB agora ultrapassa 4,127 trilhões de reais por ano. Mas nesse número estão embutidos a poluição do ar, a destruição de nossas florestas, as mortes geradas pelo aumento da criminalidade violenta e aquelas derivadas da desnutrição infantil.

Ele inclui fechaduras especiais para nossas portas, grades para nossas janelas e prisões para as pessoas que as arrombam. Inclui o crescimento desordenado de nossas cidades e o estímulo irracional incutido em nossa mente para nos levar a consumir cada vez mais.

Entretanto, o PIB não garante nossa saúde, a qualidade de nossa educação, a segurança de nossas praças ou a alegria das brincadeiras de nossas crianças. Definitivamente, ele não inclui a integridade moral de nossos políticos. Ele não mensura nosso talento ou nossa coragem, nossa sabedoria, nossa compaixão ou nossa devoção pelo nosso país.

Enfim, ele tem a ver com tudo, exceto com aquilo que faz com que a vida valha à pena. E ele pode nos dizer tudo sobre o Brasil, exceto o motivo pelo qual temos orgulho de ser Brasileiros.”

Porque o Brasil tem um péssimo índice de desenvolvimento humano? Porque a infraestrutura é precária? Porque nossas crianças deixam de lado suas brincadeiras para empurrar “carrinhos de picolé” ou empunhar enxadas? Porque pessoas morrem nas filas dos hospitais enquanto remédios apodrecem em depósitos? Porque diplomamos pessoas que não entendem aquilo que leem?

Um dos motivos todos já sabem. Nosso problema é a corrupção, o desvio, a malversação de dinheiro público, este é o flagelo do Brasil. A verdade é que alguns de nossos concidadãos são verdadeiros abutres que tentam se capitalizarem a custa da miséria humana. Pensemos no escândalo das sanguessugas: a corrupção que desviou o dinheiro de ambulâncias. Quantas pessoas não sangraram até a morte pela falta de uma ambulância? Pensemos na máfia da merenda e nas crianças passando fome por causa da ganância que alguns levam na alma. Imaginemos os bilhões de reais desviados por escândalos sórdidos. De que adianta os vários programas sociais brasileiros se o dinheiro não chega ao seu destino final. E não chega porque é “roubado”!

Nos últimos tempos, temos visto nossos mandatários patrocinando interesses de organizações criminosas e o dinheiro público sendo desviado por esquemas podres de corrupção. O prejuízo causado à população por estas alianças espúrias e pela negligência oficial, enfatiza a necessidade primordial de uma vida pública mais ética. Mas isso somente virá com uma vigilância séria e corajosa da população.

O nauseante nesta forma de desvio é que ela demonstra a essência ruim de algumas pessoas, aquilo que o ser humano tem de pior. O corrupto não desvia o dinheiro público para ter direito à moradia, mas para residir em mansões de mármore. O dinheiro desviado é gasto na compra de supérfluos como carros mais caros, aviões e fazendas, enquanto é deixado de lado o essencial para crianças maltrapilhas e pessoas moribundas em corredores sujos de hospitais.

Falta ética na vida pública brasileira. Ética em seu sentido mais puro, isto é, como um conjunto de princípios e valores que devemos usar para decidir e julgar as questões que nos são apresentadas, que são: Quero? Devo? Posso? Ora, existem coisas que eu quero, mas não devo; e coisas que eu devo, mas não posso. E aquilo que eu posso, mas não quero.

Enfim, acho que Jesus resumiu tudo quando afirmou: “De nada adianta ao homem ganhar o mundo se ele perder sua alma.” Perder a alma é perder sua integridade, sua capacidade de ser honesto, transparente e digno. Do jeito que as coisas vão o inferno vai ficar cheio.

O horizonte descortinará um futuro melhor quando todo brasileiro, do mais humilde lavrador ao mais rico empresário, tiver o direito e o desejo de saber a conduta e o caráter de seu governante, porque a soberania é do povo e não do Estado. Que venham as eleições de 2012.

 
 

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